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Alice no País do Autoconhecimento

As aventuras de Alice no país das Maravilhas, é a obra infantil mais conhecida de Charles Lutwidge Dodgson, publicada a 4 de Julho de 1865 sob o pseudónimo de Lewis Carrol. E é uma das obras mais célebres do género literário nonsense.

A história começa desde o momento em que Alice vê um coelho branco a correr apressado, vestido com um elegante colete e a usar um relógio. Nesse instante, ela toma uma decisão que a vai fazer viver as mais incríveis aventuras e conviver com as mais excêntricas personagens. Vai conhecer um mundo completamente diferente, em que animais e objetos se comportam como gente e onde, ela própria deixa de saber bem quem é. Há tanta coisa absurda e Alice sofre tantas transformações, que começa a mudar a forma como se vê a si própria e o que a rodeia.

Quero desenvolver a altura em que a Alice está com a lagarta, e esta se dirige a Alice perguntando-lhe "Quem és".

Esta é umas das questões que fiz a mim mesma na passagem de ano novo de 2017 para 2018, no meio de uma conversa alucinada de pensamentos metabólicos, alguém perguntou qual era o meu nome.
Naquela fração de segundos, naquela innarsensia de palavras, várias perguntas me ocorreram;
desde a mais simples à mais complexa:
-Qual é o meu nome?
-Porque é que estou aqui?
-Porque é que me chamo assim?
-Qual é o meu significado de vida?
-Será que eu estou mesmo aqui?

Quando Alice é questionada sobre quem é, responde " Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então" desde já, demonstra o autoconhecimento de conseguir admitir que mudou, que houve uma mudança, que algo a fez mudar, algo a fez questionar, alterou a sua mentalidade, a sua maneira de pensar e julgar tanto o ser individual como o que a rodeia. Pela conjunção temporal, ela admite que sabia quem era, mas que está num impasse do seu conhecimento próprio.

Toda a ideologia neste ato do livro está muito bem estruturada; desde a pergunta que nos faz questionar como indivíduos e nos mete à prova por segundos, como no momento em que estamos a ler subjugando-nos se realmente sabemos quem somos; como pela personagem que coloca a questão.
A personagem que coloca a questão é uma lagarta que no final da história realiza a metamorfose para o estado de borboleta.
Logo, podemos colocar a questão: -Quando é que a lagarta é mais ela? Quando é Lagarta ou Borboleta?
Quando é que nós somos mais nós? Quando temos 5 anos ou quando temos 50?
Quando é que o carvalho é mais carvalho? Quando é semente, cale ou árvore?
Uma pessoa transsexual é mais ela antes ou depois?

Ao longo da nossa vida, de uma forma ou outra iremos questionarmo-nos efetivamente sobre a nossa existência, até podendo pôr em causa se o que nós vivemos no nosso dia-a-dia realmente aconteceu ou é simplesmente uma alucinação ou um sonho. Mas precisamos de fazer estas perguntas para um autoconhecimento. Podemos até nuca chegar a uma conclusão. Mas sem as perguntas não obtemos respostas e sem respostas não temos conhecimento, e para sabermos quem somos e quem éramos precisamos deste conhecimento; precisamos de criar uma linha arbitrária desde o momento em que começamos a formular questões até ao presente.

Mas será que se pode afirmar que um ser é mais ser, quando é bebé? Quando não se questiona? Quando não analisa, nem tem opinião? Quando as suas ações e forma de ser são atos intrínsecos, e não, atos já estipulados por uma força maior? Quando a inocência está no seu estado mais puro e ingénuo?

Isto é um estudo realizado por Hegel no livro A Fenomelogia do Espírito, lançado em 1807.
No prefácio temos uma reflecção simples sobre as coisas, como por exemplo:
“O botão desaparece no desabrochar da flor, e poderia dizer-se
que a flor o refuta; do mesmo modo que o fruto faz a flor parecer
um falso ser-aí da planta, pondo-se como sua verdade em lugar da
flor: essas formas não só se distinguem, mas também se repelem
como incompatíveis entre si”
Se quisermos nesta frase está o resumo de toda a fenomelogia do espírito. Mas o que intriga, é saber qual deles é mais verdade.

Para Hegel, o ser é uma sucessão de separações de si mesmo que define o verdadeiro ser, e esse verdadeiro ser, é um ser imenso que atravessa tudo aquilo que existe e não existe.
“o ser atravessa tudo aquilo que aconteceu e tudo aquilo que pode acontecer” são duas dimensões que aparentemente não se tocam, tudo aquilo que pode acontecer e tudo aquilo que aconteceu.

Por isso, quando é que eu sou mais eu?

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