Em Lisboa o sol é brilhante. Queima as fachadas e deslava o céu. É tão forte que se impinge na minha consciência como os “olás” matinais dos meus vizinhos. No norte, as cores são mais intensas. Enquanto que cá o sol se pôe como um candeeiro se apaga, lá parece que se dá um curto circuito - irrompem faíscas, espectros vívidos - uma incorreção que o escuro mecanicamente anula. Acompanhada pelo sol na sua personalidade lisboeta, as caminhadas pela Baixa Pombalina remetem-me para a perenidade da aristocracia. Sinto-a na abertura das praças, nos blocos palacianos que definem ruas inteiras - enraizando-se na cidade como as suas árvores genealógicas -, na calçada que, branca, reflete a luz do sol, do mesmo modo que o rei via deus refletido em si. O Porto, pelo contrário, gosta de içar a sua identidade burguesa. As casas conseguem ter a mesma alteza, como que a mesma autoridade que as de Lisboa, mas não gostam de se estender ao longo das ruas. Acabam assim que o último elemento prát...