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Black Friday

Black Friday,
Sexta-feira, dia 29 de Novembro de 2019, iniciou-se a tão esperada, por tanto miúdos como por graúdos, Black Friday. Esta data, que simbolizava o início do consumo natalício, começou nos Estados Unidos da América e decorria no dia a seguir ao Thanksgiving Day. Ao longo dos anos, a Black Friday foi se mantendo e apresentado ao resto do mundo, como algo necessário e maravilhoso para o povo, provocando a necessidade de ter também, no respetivo país, um dia igual.
Black Friday nos E.U.A. coloca uma grande cadeia de lojas com descontos que na sua maioria ultrapassam os 50%, o que leva as pessoas quase a uma certa loucura para conseguirem comprar o que tanto desejam. Em Portugal, a Black Friday não atinge todas as lojas, apenas uma minoria, e não atinge valores de desconto tão elevados, ficando pelos 20%, descontos que ocorrem em alguns produtos ao longo do ano. A minoria de lojas que aderem em Portugal, no geral, lojas com produtos relativamente mais caros.
Eu, por curiosidade, pela primeira vez decidi ver até que ponto a Black Friday compensava o esforço de ir aturar multidões, suores, e artigos espalhados e sem organização nenhuma. A realidade que vi era que ao ir comprar, por exemplo, um casaco quente para os dias frios que ainda virão, primeiro a qualidade do produto era igual a qualquer casaco comprado numa loja menos cara, segundo os produtos colocados com os descontos eram de má qualidade, e terceiro que o preço com o suposto desconto exuberante continuava a ser o dobro do preço que eu gastaria normalmente a ir a uma loja mais acessível. Acabei, assim, a sair do centro comercial sem levar o casaco que tinha pensado e a lembrar-me do capítulo "Compreender a Ideologia" do livro Introdução ao Estudo da Comunicação de John Fiske "Uma das estratégias hegemónicas fulcral é a construção do "senso comum". Se as ideias da classe dominante podem ser aceites como senso comum (isto é, independentemente de classes), então o seu objetivo é alcançado e o seu trabalho ideológico disfarçado." Fiske, 1993, p. 234.
Ao lembrar me desse livro, cheguei a casa e reli-o na ideia de perceber se encontrava paralelos entre a minha experiência e os conceitos referidos por Fiske, e apercebi-me de que a Black Friday é uma forma de hegemonia. Partindo da ideia de que as classes mais baixas tendem a imitar as ideologias e os métodos das classes mais altas, a hegemonia são ideias arbitrárias que surgem nas classes dominantes e se tornam "regra geral" (senso comum), expandindo-se às classes submissas. Assim sendo, podemos concluir que a Black Friday é uma forma de "senso comum" criada pela classe dominante e usada para controlar as classes mais desfavorecidas, de forma a obrigar, indiretamente, ao gasto não pensado nas marcas dedicadas às classes mais favorecidas.

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